NarratorAbriu-se novamente a portaria, e saíram as três senhoras, e após elas Teresa. Tadeu enxugou as lágrimas, e deu alguns passos a saudar a filha, que não ergueu do chão os olhos.
Tadeu de AlbuquerqueAinda mais?!... Queres ir para tua casa, e esqueceres o maldito que nos faz a todos desgraçados?
TeresaNão, meu pai. O meu destino é o convento. Esquecê-lo nem por morte. Serei filha desobediente, mas mentirosa é que nunca.
Baltasar CoutinhoSou um dos criados que minha prima leva em sua companhia. Dois tinha eu há dias, dignos de acompanharem a minha prima; mas esses houve aí um assassino que mos matou. À falta deles, sou eu que me ofereço.
Baltasar CoutinhoEu é que me não dispenso de a servir, à falta dos meus dois fiéis criados, que um celerado me matou.
NarratorEste diálogo correu rapidamente, enquanto Tadeu de Albuquerque cortejava a prioreza e outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas de Baltasar, tinham saído do átrio do convento, e deram de rosto em Simão Botelho, encostado à esquina da rua fronteira. Teresa viu-o... adivinhou-o, primeira de todas, e exclamou:
NarratorO filho do corregedor não se moveu. Baltasar, espavorido do encontro, fitando os olhos nele, duvidava ainda.
Narrator— disse ele a Teresa com a voz comovida e o semblante alterado unicamente dos afetos do coração —
Simão BotelhoSofra com resignação, da qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldiçoar a violência, e bem pode ser que a meio caminho do seu calvário a misericórdia divina lhe redobre as forças.
Baltasar CoutinhoTem a petulância de se apresentar a sua filha a confortá-la na sua malvadez! Isto é de mais! Olhe que eu esmago-o aqui, su vilão!
Baltasar Coutinhopor entender que me avilto, castigando-o, na presença de criados de meu tio, que tu podes supor meus defensores, canalha!
Simão Botelhoespero nunca me encontrar de rosto com sua senhoria. Reputo-o tão covarde, tão sem dignidade, que o hei de mandar azorragar pelo primeiro ganha-pão das esquinas.
NarratorBaltasar Coutinho lançou-se de ímpeto a Simão. Chegou a apertar-lhe a garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as damas chegaram a interpor-se entre os dois, Baltasar tinha o alto do crânio aberto por uma bala, que lhe entrara na fronte. Vacilou um segundo, e caiu desamparado aos pés de Teresa.